Revista Científica Aprender

ISSN 1983-5450

3ª edição :: 09/2009

TODOS PELA EDUCAÇÃO

Linguagem e Infância: a Literatura Infantil no Processo de Desenvolvimento da Criança Pequena

Simone Alves Nepomuceno Lemos*
Resumo

Este trabalho apresenta, como questão central, a importância da Literatura Infantil para o desenvolvimento da criança pequena. Partiu da concepção ampliada da linguagem, especificando a sua característica como constituidora do sujeito histórico, cultural e social e a concepção da infância enquanto categoria social. Utilizou, como arcabouço teórico, aspectos do trabalho de Vygotsky (1994) e Bakhtin (2000), além de outros autores com os quais dialogamos sobre a Literatura Infantil. Os resultados indicaram que a contação e o reconto de histórias de Literatura Infantil revelam ser uma atividade interativa, potencializadora da linguagem da criança como espaço de recuperação do sujeito ator e autor de seu desenvolvimento. As crianças, enquanto interagem no mundo dos símbolos e da fantasia, expressam suas opiniões. No que diz respeito à escuta da “voz da criança” e à interação criança-criança os dados revelaram que pouco foi dado importância pela professora.

Palavras-chave

Infância, linguagem, literatura infantil, criança pequena

ABSTRACT

This paper has as its main focus the importance of children’s literature for the small child. It broke of the extended conception of the language, specifying its characteristic as constituidora of the historical, cultural and social citizen and the conception of infancy while social category. It used as theoretical background some aspects of Vygotsky’s (1994) and Bakhtin’s (2000), as well as other authors’ and with whom we have talked about children’s literature. The results indicated that the telling and re-telling of children’s literature show it to be an interactive activity which makes the child’s language stronger as a means of recovery of the individual who is at the same time actor and author of its development. As the children interact with the world of symbols and fantasy they express their opinions. In what it says respect the listening of the “voice of the child” and the interaction child-child the data they had disclosed that little was given importance for the teacher

Key-words

childhood, language, children’s literature, small child.

Esta pesquisa tem como tema a linguagem na infância, apontando como questão central a importância da literatura infantil para o desenvolvimento da criança pequena, considerando a literatura infantil como instrumento de mediação para o desenvolvimento da criança participativa e crítica deste processo de formação.

Reconhecendo a relação recíproca entre a linguagem e a interação, a Instituição de Educação Infantil apresenta-se como um lócus significativo de valorização de práticas interativas que potencializam o desenvolvimento discursivo das crianças. Surgem, então, inquietações que nos levam a indagar: Qual é o lugar que a linguagem, enquanto espaço de recuperação do sujeito ativo, ocupa na prática pedagógica das professoras durante a narrativa de histórias de Literatura nas Instituições de Educação Infantil? A professora tem dado importância à escuta da “voz da criança” e à interação criança-criança no momento da contação de histórias infantis? Como as atividades de contação de histórias infantis ajudam no desenvolvimento da criança?

Com base no pressuposto de que a interação entre as crianças se constitui no elemento mobilizador, catalisador e construtor da linguagem infantil e considerando a Literatura Infantil como atividade interativa potencializadora do espaço de recuperação do sujeito ator e autor de seu desenvolvimento, definimos como objetivo principal deste trabalho analisar como e de que forma a Literatura Infantil enquanto atividade pedagógica mediada pela professora contribui para o desenvolvimento da criança pequena. Para tanto, buscaremos compreender a dinâmica interativa e dialógica entre as crianças durante a estratégia das professoras de contar histórias.

LINGUAGEM E INTERAÇÃO SOCIAL: um diálogo com Vygotsky e Bakhtin

A linguagem é um instrumento mediador entre as relações sociais da criança com o ambiente em que vive, onde estão presentes conteúdos socialmente construídos e historicamente sedimentados que expressam valores e regras culturais, que gradualmente são interiorizados e modificados pela criança. Ao mesmo tempo em que a criança se sociabiliza durante as ações que realiza, também vai construindo suas subjetividades e seus significados acerca do mundo em que vive.

Para Vygotsky e Bakhtin, a linguagem é um instrumento mediador e organizador essencial para a constituição da consciência e do sujeito. No diálogo com o outro, durante as relações sociais, é possível estabelecer interações que promovam a formação da consciência do indivíduo, que por sua vez, resultam de construções sobre a realidade no interior da vida mental do indivíduo.

A concepção de linguagem infantil apresentada neste trabalho reconhece a sua característica como constituidora da criança enquanto ser social, histórico e cultural. Jobim e Souza (1994, p. 21) traz uma discussão sobre o papel libertador da linguagem, denuncia o sistema normatizador presente em nossa sociedade que rechaça a possibilidade de permitir desde muito cedo às crianças a sua liberdade de ser, construir, participar e de expressar, daí a necessidade de se (re) pensar o lugar da linguagem enquanto se propõe uma educação de qualidade para as crianças pequenas.

Partimos do pressuposto de que o desenvolvimento infantil não pode ser reduzido a um aspecto natural acompanhando estágios sequenciais. A perspectiva dialética que fundamenta nosso estudo nos afasta da noção “naturalista” de desenvolvimento que contempla a criança como um ser incompleto, um “vir a ser”, ou seja, o que ainda não é. Ao contrário da visão naturalista, concebemos o desenvolvimento da criança como o processo que vai sendo construído pela própria criança durante as interações com “outros” em seu universo social.

A importância da interação social e a concepção da linguagem como espaço de recuperação do sujeito como ser histórico e social é o ponto em que o pensamento de Vygotsky encontra-se com o de Bakhtin. Tomando como referência este ponto de confluência é lícito afirmar que, segundo estes autores, o desenvolvimento da criança tem sua origem durante a interação social a partir de uma relação mútua entre o plano individual e o plano social, ou seja, o desenvolvimento linguístico infantil só pode ser entendido a partir de suas relações com o outro.

Para Bakhtin a produção da linguagem é sempre dialógica, as múltiplas vozes (polifonia) e múltiplos sentidos (polissemia) se encontram no discurso de um grupo social, não permitem uma verdade única em suas falas, mas “verdades” presentes nas diversas interações sociais que por muitas vezes vão sendo lembradas. Desse modo, esclarece que os sentidos são construídos a partir das múltiplas vozes presentes na interação verbal o que caracteriza uma concepção interacionista da linguagem.

As práticas discursivas estabelecidas entre as crianças, em geral, são mediadas pela professora, que por sua vez precisa estar atenta às singularidades de cada criança, considerando os significados dados por cada uma delas. O que implica que a professora deve perceber a diversidade de experiências que cada uma traz do mundo social e cultural ao qual pertence.

A partir dessas considerações, este estudo corrobora a idéia de que é num contexto de diversidades que se constitui a importância da interação social, onde a linguagem é reconhecida como o instrumento mediador entre as crianças e o espaço de recuperação do sujeito questionador e participante de decisões. As crianças partilham dinamicamente do processo de construção de valores e da manifestação da cultura infantil explorando a verdadeira liberdade de expressão, enquanto vivem intensamente as suas “infâncias”.

LITERATURA INFANTIL: a contação e o reconto de histórias

Historicamente, a arte de contar histórias era vista com status inferior em relação à escrita; por outro lado as lendas e os contos foram sendo disseminados através da contação de histórias. Os povos mais antigos se reuniam ao redor de fogueiras, enquanto contavam as suas histórias e, assim, disseminavam a sua cultura e os seus costumes. Reunir-se para ouvir a contação de histórias, cada vez mais, passou a ser uma atividade dos mais simples, o que explica ter sido, por tanto tempo, uma prática tão rechaçada pela sociedade.

A Literatura Infantil surge dos contos populares, que se tornaram o bojo de inspiração de muitos autores atualmente reconhecidos. Arroyo (1990) comenta que esta é a principal razão de se considerar a contação de história a gênese da Literatura.

Amarilha (1997) defende que o acesso à contação de histórias promove condições de a criança desenvolver sua habilidade discursiva, quando lhe é conferida a possibilidade de recontar a história, desenhar e identificar os personagens e outras formas de representação. Enquanto lhes conta a história, o ouvinte (a criança) é levado a comportar-se com tão grande fascínio, que vai sendo envolvido para o livro e para o silêncio que, segundo a autora, são comportamentos comuns somente aos que conseguem exercer com o livro grande intimidade.

A arte de contar histórias implica algumas atenções, primeiramente na escolha daquilo que se vai contar. Conforme Coelho (2000, p. 153), a Literatura Contemporânea tem considerado o ato de contar como “o ato de criar através da palavra”. Para esta autora, há o narrador dialógico (ou dialético), a sua característica marcante é provocar, dirigir-se ao que escuta, mas também é chamado a participar, a interagir com o texto, sendo este que conta.

[...] um eu-narrador que se dirige continuamente a um tu, a alguém que, entretanto, não se faz ouvir na superfície da narrativa, mas de certa forma a provoca. (COELHO, 2000, p. 68)

Para Abramovich (1993, p. 23), “O ouvir histórias pode estimular o desenhar, o musicar, o sair, o ficar, o pensar, o teatrar, o imaginar, o brincar, o ver o livro, o escrever, o querer ouvir de novo (a mesma história ou outra). Afinal, tudo pode nascer dum texto!” Essa perspectiva deve estar presente na metodologia da professora que utiliza as histórias de Literatura Infantil em sua atividade com a criança, estimulando-a a imaginar e a se envolver.

A professora, ao contar uma história, deve envolver a criança e fazê-la identificar-se com os personagens; ao interagirem com as histórias, as crianças passam a despertar emoções como se estivessem vivendo o que ali lhe é narrado, os sentimentos apresentados permitem que a criança, através da imaginação, exercite a capacidade de resolução de situações que vive em seu cotidiano.

Coelho, Betty (1991) recomenda que, após contar a história, a criança deve ser estimulada a recontá-la, e, para tanto, é preciso que se dê tempo para pensar e permita que ela possa dar outro final à história, altere, modifique. Um exercício para desenvolver nas crianças o poder de imaginação e de observação. As pausas que a criança faz refletem o momento em que o interdiscurso ouvido passa gradativamente a fazer parte, mais tarde, do intradiscurso. Quando recontam, as crianças estabelecem uma relação entre o fantasioso e a realidade e demonstram interesse durante essa atividade.

[...] o interesse na repetição e na reconstrução de uma narrativa é compatível com o nível de construção da linguagem. Ela permite a passagem das primeiras formas de pensamento às formas que vão se estabelecer em um segundo momento quando se completa a aquisição da linguagem. (SILVA, 2007 apud BONNAFÉ, 2001, p. 116).

Segundo Coelho, Betty (1991), a criança com 3 a 6 anos encontra-se na fase mágica, fase marcada pelo interesse, pelo faz-de-conta e expectativas de que tudo se resolve a partir de toques mágicos. Este é um período em que a criança solicita o “conte outra vez”, o tempo das repetições e interesse por histórias de fadas, pelo elemento maravilhoso que possui.

Silva (2007, p. 61) sobre o tema contar/recontar, diz o seguinte:

Desse modo, há não só uma continuidade na ação, mas também uma reversibilidade de papéis. Inicialmente, o professor-contador de histórias detém o poder do saber e de organizar em objetivos em estratégias, definindo o que, como, quando e onde contar. Na segunda etapa, o sujeito da ação é o aluno e não mais o professor. Por mais que os comandos sejam os mesmos em um universo de sala de aula, em qualquer faixa-etária lida-se, querendo ou não, com o elemento surpresa, que é a singularidade de cada pessoa. Nesse caso, manifesto na sua forma de perceber e de captar o mundo. Suas experiências atreladas ao contexto imediato, ou seja, a intertextualidade, que aqui é bastante subjetiva, expressa-se na fala ou na escrita do recontador.

A atividade de contar e de recontar auxilia a criança a desenvolver e reorganizar seus esquemas e permite que ela construa seus sentidos enquanto expõe e desenvolve habilidades significativas para o seu desenvolvimento.

MÉTODO

Esta pesquisa foi realizada na Escola Interativa (nome fictício), da rede particular da cidade de João Pessoa, na Paraíba. Utilizamos o método de análise das interações dialógicas das videogravações divididas em dois momentos: no primeiro, a contação da história pela professora para as crianças; em um segundo momento, as crianças recontam a história.

A análise dos dados colhidos durante a atividade com a Literatura Infantil procurou destacar os seguintes pontos: a linguagem enquanto espaço de recuperação do sujeito, a valorização da interação e da escuta da “voz da criança” e a Literatura Infantil no processo de desenvolvimento da criança.

RESULTADOS

Os dados obtidos em nossa pesquisa permitem inferir que a Literatura Infantil pode contribuir para o processo de desenvolvimento da criança, quando a atividade de contar e recontar histórias transcende à relação conformadora da criança e constrói uma dinâmica interativa e emancipadora com ela. A linguagem aparece como instrumento mediador durante os movimentos interativos com as crianças e com seus pares; no entanto, a linguagem oral não é a única maneira de a criança se expressar; em seu universo, percebe-se o gesto, risos, expressões faciais, movimentos corporais que se constituem como as múltiplas linguagens dela. Durante a atividade de contar e recontar a história, pouco espaço foi dado à escuta da “voz da criança” e à interação criança-criança. As crianças sempre que interagem revelam as suas emoções, o entusiasmo pela história e demonstração de afeto entre si. Os resultados em geral indicam que a professora não tem reconhecido a linguagem enquanto espaço de recuperação do sujeito. Este estudo pretende avançar as discussões acerca da concepção de linguagem em sua característica enquanto espaço de recuperação e a visibilidade que as professoras têm dado às crianças durante as práticas pedagógicas em Instituições de Educação Infantil.

REFERÊNCIAS

  • ABRAMOVICH, F. Literatura Infantil. São Paulo: Scipicione. 1993.
  • AMARILHA, Marly. Estão mortas as fadas? Petrópolis: Rio de Janeiro: Vozes. 1997.
  • ARROYO, Leonardo. Literatura Infantil Brasileira – ensaios de preliminares para sua história e fontes. São Paulo: Melhoramentos, 1968.
  • BAKHTIN, Mikhail Mikhailovitch. (Voloshinov, V. N.). Marxismo e filosofia da linguagem. 6a ed,Tradução: Michel Lahud e Yara Frateschi Vieira. S. P.: HUCITEC, 2002.
  • _________. Estética da criação verbal. S. P.: Martins Fontes, 1991.
  • COELHO, Betty. Contar história: uma arte sem idade. São Paulo. Ed. Ática. 1991
  • COELHO, Nelly Novaes. Literatura Infantil: teoria, análise, didática. – 1. ed. São Paulo: Moderna, 2000.
  • JOBIM E SOUZA, Solange. Infância e Linguagem: Bakhtin, Vygotsky e Benjamin – Campinas, SP: Papirus, 1994.
  • SILVA, Fabiana Sena da Silva; VILAR, Socorro. A fantasia dos contos de fadas no cotidiano da sala de aula. Centro de Educação da UFPB. 2002.
  • VYGOTSKY, L. S. Pensamento e Linguagem. São Paulo. Martins Fontes, 1994.
  • VYGOTSKY, L. S. A Formação Social da Mente. São Paulo. Martins Fontes, 1991.

* Psicóloga clínica abordagem Cognitiva-comportamental, mestre em Educação pela Universidade Federal da Paraíba (UFPB), membro do Núcleo de Pesquisa de Estudos e Pesquisas sobre a criança (NUPEC- UFPB).